Não me recordo há quanto tempo nos conhecemos. Sempre tivemos uma relação conturbada. Toda vez ela me aparece aos poucos, sem eu perceber. Ela gosta de me surpreender.
Pouco a pouco, perco a razão. Ela me perturba. Consegue tirar de mim tudo o que prezo. Me põe na cabeça as piores coisas que eu posso pensar. Problemas e conversas que quero, nesse momento, esquecer. Tento negar incessantemente a sua presença, mas nossa conexão é muito forte.
O desespero começa a tomar meu corpo. Pressiono meus dedos nas palmas das mãos. Lentamente, puxo meus fios de cabelo. É um autoflagelo. Giro. E giro. Sinto ecoando pelo meu cérebro as mais aterrorizantes sinfonias de Beethoven.
Permanecemos a noite toda na cama como um casal recém-enamorado. Mas quero pôr minhas mãos ao redor do meu pescoço, sufocar-me por ter deixado ela entrar em minha vida novamente. Romeu e Julieta teriam inveja da paixão suicida que nos envolve.
A sanidade, nesse momento, já não parece mais existir. Devaneios e palavras que nem sequer existem, que significam reais sensações de perturbação, imperam em sair de meus lábios em tons de sirenes. Entretanto, nem ao menos tenho a liberdade de vomitá-las.
Vejo o relógio. Já se passaram horas. Abro uma cerveja para relaxar. Beethoven continua a ecoar, mas, sem que eu perceba, tudo fica mudo.
Meio-dia e vinte cinco, horário de Brasília.
— Insônia, que seja a última vez, sua filha da puta.




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